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Subia, a corta mato, uma alta montanha, completamente sozinha, do 1º ao último dia.
No inverno gelava, tinha muitas frieiras. As mãos ficavam entorpecidas.....mas nem pensar em chegá-las perto do fogo, era uma dor insuportável.
As pernas estavam cheias de bolhas, que rebentavam, por se chegar muito à lareira....na casa da sua avó, de triste memória.
A escola não tinha aquecimento, nem água, nem luz, nem casas de banho.
No inverno, ao subir a montanha coberta de musgo congelado, por cada passo em frente, agarrada aos "codeços", pequenos arbustos cheios de espinhos, escorregava outro para trás.
As professoras, que também odiavam estar ali, vingavam-se a dar réguadas nas mãos das crianças.
Passavam os intervalos tentando aquecer as mãos sob os braços...porque uma reguada sobre mãos geladas era insuportável ... Mas suporta-ve, num canto, longe de olhares.
Muitas crianças iam descalças e quase nuas, sobre a neve.
...Pensar que apenas perdia tempo, pois já sabia ler e escrever, sentava-se numa classe qualquer.
Não tinha sequer nome, era "a Orfã"... a única criança que tinha relógio de pulso!
Os remediados e também os pobres que amavam os filhos acima de tudo, ofereciam um relógio de pulso após o exame da quarta classe, assinalando a sua entrada no difícil mundo do trabalho quase escravo até ao fim dos seus dias.
Que desgosto causava ter algo que as colegas ambicionavam emas que quereria bem longe do braço, lembrando a toda a hora quanto era diferente e dolorosa a vida... mas a avó obrigava!
Aquele símbolo tinha de acompanhar-la sempre, para fazer de conta que era uma menina de teres e haveres, estimada, quando não existia criança mais entregue a si mesma, a todos os perigos exposta, deambulando de casa em casa, pois tinha muitos tios e tias mas nenhum elo de amizade e compaixão na curta vida!
Maria Petronilho
Enviado por Maria Petronilho em 01/08/2016
Alterado em 30/03/2018
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