Textos




A tua trisavó tinha um peru, já velho, que corria toda a gente à bicada, sobretudo quem fosse menor que ele...que era eu!

Lá vinha ele todo eriçado a correr atrás de mim e quando bicava... já olhaste o bico deles?!

Mas a trisavó tinha lá os seus poderes entre eles o peru e um gato preto...tentavam dar cabo deles, mas ela não permitia!

É que dos poderes também fazia parte uma bengala...e que bengala!

Era fugir dela o mais possível, parecia que tinha vida própria, deixava marca onde acertava.

Um dia a Henriqueta, já crescida, apanhou-a no ar e zumba! Partiu-a ao meio, no joelho dobrado.

Passou a levar menos com a bengala sucessora...

Mandava isto e aquilo, era a matriarca, apesar dos noventa e tal anos. Tinha os rendimentos todos e ninguém se atrevia a desautorizá-la.

Mas quando estava de bom humor...sentávamo-nos as duas nos degraus do balcão a migar folhas de couve para as galinhas e ela contava estórias com centenas de anos, de todos os antepassados, que vieram de outros lados até se instalarem, poderosos, em Monsanto.

Contava a estória muitas vezes, sempre certinha!

Conseguia enfiar uma agulha, se estivesse ao sol....

Doíam-lhe muito as costas, andava curvada, com o corpo e as pernas quase em ângulo reto.

Punham-lhe ventosas e sanguessugas, que estavam num pote de barro tapadas com um trapo esticado.

Mandava fazer tabuleiros enormes de broas de mel, só para ela.

Metia-as na arca e ia comendo, era gulosa, até que se estragavam... então chamava esta ou aquela e mandava dar os bolos à canalha.

Sentada num tropeço, ao sol, parecia uma rainha!
Maria Petronilho
Enviado por Maria Petronilho em 06/03/2016
Esta obra está licenciada sob uma Licença Creative Commons. Você pode copiar, distribuir, exibir, executar, desde que seja dado crédito ao autor original (Maria Petronilho (registo www.igac- ref 2276/DRCAC - Ministério da Cultura, Portugal)). Você não pode fazer uso comercial desta obra. Você não pode criar obras derivadas.


Comentários


Imagem de cabeçalho: inoc/flickr