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O Romântico Libertino

George Gordon Byron, (1788-1824) nasceu em Londres, no dia 22 de Janeiro de 1788. George Gordon, mais conhecido como Lorde Byron, tinha uma ascendência aristocrática. Era o sexto barão Byron da linhagem. Sua mãe, Catherine Gordon Byron vinha da família dos Gordons escocês, uma família tradicional e muito conhecida por sua ferocidade e violência. Seu pai, John Byron, era um bon-vivant. Imigrou com a esposa para a França para fugir das cobranças de credores. Porém, como ela não queria que seu rebento nascesse em solo francês, não hesitou em voltar à ilha da rainha. John ficou e encontrou abrigo na casa de sua irmã. Em 1791, foi encontrado morto, aparentemente por suicídio.

Logo após o seu nascimento, a mãe de Byron levou-o para a Aberdeen, Escócia, onde uma deformidade num dos seus pés se evidenciou. Calçou botas especiais e passou por inúmeros tratamentos mas logo deixou estas dolorosas experiências. O pequeno George vivia mergulhado em leituras, com atenção especial para a história de Roma. Sonhava ser comandante de um regimento de soldados alucinados e heróicos, acima de tudo.

Mas sua infância não se resumia a isto. Ele era marcado pelo amor. Aos sete anos, Byron apaixonou-se perdidamente por sua prima, Mary Duff. Aos nove, a governanta da casa, Mary Gray, introduziu-o aos prazeres da carne.

Aos 10 anos, tornou-se oficialmente Lorde Byron. Assumiu o poder da casa de Newstead, mas como ela se encontrava em ruínas, ele e sua mãe mudaram-se para Nottingham. As finanças minguavam. Tudo o que remetia ao nome dos Byron era motivo de processos por dívidas. O pequeno Byron foi enviado para a academia do doutor Glennie em Dulwich e logo em seguida para Harrow, onde se tornou o alvo predileto para zombarias dos demais alunos. Durante um Natal, retornou para Newstead, que havia sido alugada por Lorde Ruthyn, que o iniciou no bissexualismo. Apaixonou-se perdidamente por Mary Ann Chaworth, uma vizinha. Ficou tão obcecado que se recusou a voltar. Ruthyn obrigou-o a sair à força.

Na adolescência, Byron foi tomando consciência do seu poder. Possuidor de carisma, beleza e sedução, começou a aproveitar os seus dons. Numa visita a Lorde Grey, acabou envolvendo-se sexualmente com o seu anfitrião. Mulheres e homens desejavam aquele adolescente rebelde. De volta à escola, Byron foi além. Envolveu-se com colegas, empregadas, professores, prostitutas e moças que adoravam um título de nobreza.

Em 1805, Byron teve um grande choque. Mary Ann casou-se. Em consequência, tornou-se ainda mais rebelde. Conseguiu um trabalho em Cambridge mas nunca trabalhava, já que esta era a moda para os fidalgos da época. Era o tédio, o spleen. Era a forma como os românticos viviam a vida, da qual Byron foi o mestre supremo. Escrevia versos e mais versos e gastava muito dinheiro. Não demorou a perder todas as posses, o que o levou a recorrer a empréstimos de familiares. Tinha apenas 17 anos. Chegou, inclusive, a pedir ajuda para sua meia-irmã Augusta Byron Leigh.

Ao passar uma temporada com a mãe, coisa que ele odiava, Byron foi encorajada a publicar os seus poemas, por uma vizinha. Em 1806, o livro "Fugitive Pieces" foi lançado. Enviou cópias para dois amigos. Um deles respondeu que o poema "To Mary" era muito chocante para ser lido pelo público. Byron acreditou e mandou queimar todas as cópias da obra. Em 1806, o livro foi republicado com o nome de "Hours of Idleness", excluído o tal poema. Cópias e mais cópias foram vendidas mas a crítica dividia-se. Byron respondeu a seus detractores com a sátira "English Bards and Scotch Reviewers".

Em junho de 1809, Byron e os seus amigos John Cam Hobhouse e William Fletcher resolveram fazer uma viagem pela Europa. Acabaram conhecendo Portugal, Espanha, Grécia, Albânia, Malta e Turquia. Entrou em choque com o conservismo português e quase protagonizou um duelo contra um marido enfurecido. Byron também conheceu Ali, o paxá da Albânia, muito conhecido por ser um carniceiro. O poeta ficou impressionado com o governante. Foi justamente nesta época que começou a escrever uma de suas obras-primas, "Childe Harold's Pilgrimage". Seus amigos retornaram a Inglaterra, mas Byron ficou na Grécia, vivendo numa escola para jovens. Manteve um tórrido caso com Nicolo Giraud, um jovem grego que chegou a salvar-lhe a vida quando adoeceu com malária. Em gratidão, o poeta pagou toda a educação de Nicolo. Mais tarde, voltou para a Inglaterra. Mas já não se reconhecia ali. Sua mãe havia morrido, um de seus melhores amigos morrera afogado e o casamento de sua irmã estava falido. Nesta época, abandonou a poesia. Mas por insistência de um amigo, os primeiros dois cantos de "Chile Harold" foram publicados em fevereiro de 1812. Foi um sucesso brutal. Tornou-se uma sensação. Mulheres atiravam-se em seus braços.

Lady Caroline Lamb era a mais notória e determinada a conquistar Byron. Emocional e excêntrica, Caroline Lamb era da alta corte e casada. Ela chegou, inclusive, a enviar-lhe alguns dos seus pelos púbicos. Byron, para escapar das garras de Caroline, confessou sua preferência sexual por moços. Então, ela apareceu no seu quarto, vestida de oficial do exército, na tentativa de conquistá-lo. Foi a gota d'água. Com medo do genro, a mãe da apaixonada dama convenceu Byron a romper o romance. Para se confortar, ele mergulhou nos braços de Lady Oxford. Em seguida, tentou conquistar Annabella Milbanke, prima de William Lamb. Annabella recusou-o e ele entrou em depressão.

Em 1813, Augusta visitou-o, fugindo de credores e problemas pessoais. Augusta, sua adorada meia-irmã e confidente, voltou grávida.

Desse incesto nasceu uma filha saudável, com os traços de ambos, a quem chamaram Medora. Cresceu chamando a seu pai simplesmente tio.

Em 1814, Byron investiu novamente em Annabella. Desta vez deu certo. Em 2 de janeiro de 1815, casaram. Annabella era uma leitora assídua da literatura gótica. Tentou fazer o papel de heroína e converter Byron. Em Dezembro do mesmo ano, deu à luz Augusta Ada. Mas dois meses depois, Annabella não o aguentava mais e pediu o divórcio.

Caroline aproveitou para se vingar. Espalhou boatos sobre a sodomia do poeta. Annabella não se manifestou, já que a história a favorecia no divórcio e lhe dava um ar de mulher de moral. Com isto, a sociedade londrina fechou as portas a Byron.

Em Abril, ele decide voltar ao continente, seguido por Hobhouse, Fletcher e um novo companheiro: John Polidori. Em Maio, o grupo encontrou-se com Percy Bysshe Shelley e Mary Godwin (mais tarde, Shelley), que viviam uma vida de desejos e pecados, já que Percy era casado e Mary era sua amante. O casal estava acompanhado de Claire Clairmont, irmã adotiva de Mary, que guiou a excursão afim de se encontrar com Byron, com quem já se correspondia. Byron resolveu passar um tempo em Diodati, na Suíça. Os novos amigos juntaram-se a ele. Hobhouse e Fletcher decidiram ficar na Inglaterra

Byron, precisando muito de um amigo, ligou-se a Shelley. Passavam horas discutindo filosofias e poesias. Navegavam pelo lago e visitavam os cenários da Nova Heloísa, de Rousseau. Chegaram, inclusive, a trocar rosas e carícias... Após visitar o Chateau de Chillon, Byron inspirou-se a escrever um de seus mais belos poemas: "The Prisoner of Chillon". Numa noite chuvosa em Diodati, o grupo decidiu compor histórias macabras. Nasceu ali Frankenstein de Mary Shelley e O Vampiro, de Polidori.

Com tudo indo bem, Byron viu-se num novo dilema. Mantinha Claire ocupada, copiando suas poesias até que ela lhe revelou estar grávida. Byron concordou em cuidar da criança mas recusou-se a continuar o caso com ela. Mudou-se para Veneza, onde, mais uma vez, se apaixonou. Ali, terminou Childe Harold, escreveu "Manfred", "The Lament of Tasso", "Mazeppa", "Beppo" e começou "Don Juan". A sua vida sexual era frenética e lendária. Manteve várias amantes. O seu gondoleiro lhe trazia-lhe prostitutas todas as noites. Byron, inclusive, alugou um pequeno apartamento para se encontrar com estrelas da ópera e condessas.

Claire levou sua filha Allegra para a Itália. Byron ficou extasiado mas recusou encontrar-se com a mãe. Permitiu apenas que Shelley o visitasse. Foi o fim da ligação entre Byron e Claire. Em 1819, ele assumiu Teresa, a condessa Guicioli, como amante. Foi um escândalo. Não somente porque ela era casada mas também porque ele, Teresa e o marido dela viviam na mesma casa. No ano seguinte, envolveu-se com a política, juntando-se a combatentes pela independência italiana. Mas, aos poucos, a sua vida iria mudar.

Em 1822, Shelley morreu afogado. Allegra, sua filha, morreu de febre. Byron ficou devastado. No ano seguinte, juntou-se à causa grega pela independência da Turquia. Viajou até a Grécia mesmo convencido de que iria encontrar a morte. Encontrou abrigo com as tropas do príncipe Mavrocordato e financiou um navio de guerra. Em Fevereiro de 1824, teve um ataque epiléptico. Dois meses depois, após enfrentar uma tempestade enquanto cavalgava, adoeceu com uma gripe da qual nunca recuperou. Em 19 de Abril do mesmo ano, na cidade de Missolonghi, num Domingo de Páscoa chuvoso, aos 36 anos de idade, a sua voz calou-se após sofrer de delírios por dias a fio. O mundo perdia um dos mais empolgantes escritores de todos os tempos.

Não pode ler as cartas que chegaram da Inglaterra, comunicando que lhe tinham formalmente perdoado as suas indiscrições. Também se livrou da tormenta que se abateu sobre o jovem grego Lukas, que se havia tornado objecto de afeição de Byron. Na época, o poeta até se mortificou com uma dieta de água e biscoitos, que era uma prescrição medieval para curar a luxúria homossexual. Infelizmente, um homem fraco não poderia aguentar a pressão de uma guerra. O ataque epiléptico, muito provavelmente, foi causado por anorexia nervosa, mas seu médico diagnosticou-o como sendo uma doença cerebral causada por sua vida sexual conturbada. Pior, o incompetente médico não percebeu os sintomas de malária em Byron e preferiu fazer uma sangria ao poeta. "Os meus médicos mataram-me", foi uma de suas últimas frases para o seu criado. Após a sua morte, foi feita uma autópsia. Os médicos encontraram lesões no cérebro, o que, para eles, comprovava que a morte foi causada por promiscuidade sexual.

Adorado na Grécia, foi embalsamado e o seu coração foi retirado e enterrado em solo grego. Os restos mortais foram transportados para Inglaterra, contrariando os seus desejos. Ao chegar a Londres, a Abadia de Westminster recusou-se a receber o funeral, alegando que ele era um pecador irreparável. Mesmo assim, o cortejo fúnebre foi assistido por milhares de pessoas. Byron foi enterrado na igreja Hucknall Torkard, próxima da Abadia de Newstead, ao lado de sua mãe e demais gerações da sua família.

Conta uma lenda que Susan Vaughn, uma criada galesa que havia recusado as investidas de Byron, deixou sobre o seu túmulo os últimos tomos de "Don Juan", publicados um mês antes de sua morte e que durante muito tempo, o exemplar ficou em bom estado, como se alguém cuidasse dele eternamente. Curiosamente, 145 anos após sua morte, em 1969, a Abadia de Westminster construiu um memorial em homenagem ao mais libertino dos poetas ingleses.


Nota: autorizei a publicação desta biografia, escrita em 16 de Dezembro de 2006, ao Amigo, Poeta e Editor de "Poesia & Literatura" Eugénio de Sá:
3ª Edição da AVPB (Academia Virtual Poética do Brasil).
Maria Petronilho
Enviado por Maria Petronilho em 29/03/2007
Alterado em 29/03/2007
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