Textos




"Raymundo Silveira é médico e escritor. De Novembro de 1979 a Junho de 1990 foi membro do Conselho Editorial da Revista FEMINA, órgão oficial da Federação Brasileira das Sociedades de Ginecologia e Obstetrícia onde publicou cerca de meia centena de artigos científicos. Tem também trabalhos publicados em livros e outras revistas médicas. "Prevenção e Diagnóstico do Câncer na Mulher", "Ceará Médico", "GO Atual" e "Revista Brasileira de Ginecologia E Obstetrícia". Entre outras.
Suas atividades na literatura convencional tiveram início com o advento da Internet, onde publicou mais de trinta livros eletrônicos. Tem, também, textos editados em numerosos sites sob a forma de Contos, Crônicas, Ensaio, Crítica e Poesia. Um deles, o italiano Progetto Letterario Internazionale DOMIST, traduziu alguns dos seus escritos para o Inglês, Francês, Espanhol e Alemão. Recebeu alguns prêmios. Entres estes, o que mais o orgulha, é o que lhe foi conferido pela Associação Médica Brasileira. Em reconhecimento pelos trabalhos que tem publicado em defesa das mulheres.".

raysilveira@secrel.com.br

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Minhas Escritas



Haicais

Chuvas de verão
Transbordam secos rios
De rasos leitos.

Lindos versos são
Bailados de palavras
Na primavera.

Em noite escura
Pirilampos clareiam
Negros caminhos.

Buscando o inverno
Vive sempre o sertanejo,
Na seca bruta.

Iluminados
Pelo luar do sertão
Correm os rios.

As borboletas
Que voam em pleno abril
São as mais belas.

Depois da seca
Cheiro de chão molhado
Doira o coração.

Escuras nuvens
São luzes de esperança
Pro sertanejo.

Escassas chuvas
Pra quem nunca viu outono
São bons invernos.

Plenos de encanto
Os sapos nas lagoas
Cantam pras chuvas.




Lisboa, Meu Amor

“Lisboa tem ainda meiguices primitivas de luz e de frescura: apesar dos asfaltos, das fábricas, dos gasômetros, dos cais, ainda aqui as Primaveras escutam os versos que o vento faz sobre os seus telhados; ainda se beijam as pombas; ainda, no silêncio, o ar escorre pelas cantarias, como o sangue ideal da melancolia. E Deus ainda não é um poeta impopular.”

(Eça de Queiroz: Lisboa)


"Olhai senhores / Esta Lisboa de outras eras". Infelizmente não, poeta. A Lisboa de outras eras praticamente desapareceu, num devastador terremoto em Novembro de 1755. A Lisboa que iremos ver agora foi quase toda reconstruída a partir do século XVIII, graças ao gênio empreendedor do Marquês de Pombal. Mesmo assim, vale a pena conhecer esta cidade fascinante, misto de Europa, África e Oceano. Sim, porque, não só Lisboa, como todo Portugal, não seriam o que são hoje sem as navegações. Portanto, um pouco contradizendo a canção, quase tudo o quanto existe para ver em Lisboa é relativamente recente, pelo menos no que diz respeito à cidade baixa. Mas não há como duvidar: "o branco véu da saudade cobre o teu rosto / linda princesa”. Passai ao largo daqui viajores, que esperais encontrar a Paris dos grandes Bulevares, a Londres dos sofisticados Palácios, a Estocolmo das ilhas majestosas e mesmo a Madrid, sua irmã mais rica. Lisboa é para corações sentimentais ainda impregnados de incurável romantismo que este início de século crê convenientemente morto e sepultado.
Por mais que seus líderes políticos tenham um discurso modernoso onde as expressões "globalização”,"neoliberalismo", "economia de mercado" e outros similares sejam a tônica, o que de fato iremos encontrar é a proa da "Jangada de Pedra" de José Saramago, que insiste em zarpar para ocidente. "As festas, / As seculares procissões", decerto não mais existem, mas "os populares pregões matinais" voltam, sim. No canto dolente dos fadistas. Nos semblantes melancólicos dos seus habitantes mais idosos. Nos rouxinóis dos beirais da Mouraria. Na indumentária negra das viúvas. Nos reformados da baixa. Nos elétricos da Praça de Espanha. Nos comboios de Santa Apolônia e do Cais do Sodré. Nos canteiros do Parque Eduardo VII de cujos fundos fita-a, majestosamente, o vulto de bronze do Marquês de Pombal. Nos quiosques da Avenida da Liberdade. Nos guisados do João do Grão. Nas touradas incruentas do Campo Pequeno. Nas sardinhas assadas na brasa das vielas da Alfama. Na antiguidade das pedras do Castelo de São Jorge. E na "alegria gostosa de ser triste" de que fala Jorge de Lima em seu poema "Calabar”.
Uma das raras áreas que a catástrofe do século XVIII achou por bem poupar foi uma fortificação de origem romana, aprimorada pelos mouros: o célebre Castelo de São Jorge com cerca de dois mil anos de idade. De onde é possível vislumbrar boa parte da cidade e do rio Tejo com sua ponte Salazar / 25 de Abril. Faço questão de registrar o nome do tirano a fim de que os seus atos não sejam esquecidos pelas novas gerações. Pois as lembranças tristes também são necessárias, na medida em que ajudam a evitar que se repitam. Ali há lugares para passear, ver, rever, descansar e recordar. Mas o apogeu da visita a este Forte - pelo menos na minha ótica - é, paradoxalmente, uma descida. As ruelas do bairro da Alfama. Pode parecer esquisito, mas quando me perguntam, "Do que mais tu gostas em Lisboa?" Não hesito em responder: "das vielas da Mouraria e da Alfama". Por quê? Não sei. Juro que não sei! O que posso dizer é que quando chego lá me bate um misto de doçura e melancolia cuja síntese somente na língua portuguesa há um vocábulo para expressá-lo: Saudade. De quê? Também não sei. De algo já visto ou nunca visto. Um "déjà vu" mais estranho que os demais. Simbolizado naqueles varais sobre as janelas. Pelas raparigas de olhares lânguidos e sorrisos serenos, entrecortados de uma certa tristeza que - tenho certeza - fez parte um dia das minhas vivências infantis. É na Mouraria e, sobretudo na Alfama onde os meus traços portugueses mais se revelam. Tenho convicção quase absoluta de que ali me encontro no meio de pessoas em cujas veias corre um pouco de sangue semelhante ao meu. Sangue, portanto, de gente minha. Gente do meu coração! Só após este périplo é que começo o meu verdadeiro tour por Lisboa. Antes, não havia feito turismo algum, mas uma peregrinação ao meu arquetípico lar.
Daqui é que parto para o Mosteiro dos Jerônimos, para a Torre de Belém, para a Praça do Comércio. E daí para o Rossio, Restauradores, Praça Dom Pedro IV (aliás, PedroI procurem se informar por quê!) e Chiado. Este último é todo especial, pois é lá onde se situa o café "A Brasileira", onde me quedo horas a fio a cismar. Não pelo fato de exibir o nome da minha pátria, mas por me trazer de volta o poeta da minha predileção. Em qualquer país, idioma, escola ou estilo literário. Era lá onde interrompia a rotina de viver para criar, na serenidade de sua solidão prolífica, os versos mais geniais que a poesia universal jamais conheceu iguais, o poeta Fernando Pessoa. Depois, é o que manda o instinto. Museu dos Coches, Centro Cultural Calouste Gulbenkian, Museu de Arte Antiga, Museu de Arte Popular, Museu da Marinha, Catedral, Parque Eduardo VII. Ou simplesmente flanar à toa pela Avenida da Liberdade. À noite - precisa dizer? - Casa de Fados, dolentes guitarras, voluptuosas cantoras, vinhos gostosos, caldinho verde, bacalhau. E as noitadas de amor na minha amada cidade... Saudade.

Escrito e Publicado, pela primeira vez, em 14/01/2001.




Uma Criança Que Enfrentou O Mundo Sozinha (e Venceu)


Este "parece que foi ontem" é mais um clichê daqueles antipaticíssimos que detesto, renego, abomino. Mas em certas ocasiões não há como escapar dele: parece que foi ontem. Aliás, parece que foi ontem, não, parece que foi hoje. Estou falando da madrugada de 09 de Setembro de 1973. Foi uma noite de ansiedades, de sustos, de perplexidades, de angústias, de medo, de alegria, de expectativas, de esperanças, de fé, em síntese, certamente foi a noite em que experimentei, no espaço de meia dúzia de horas, todas as emoções que já tive até hoje. Afinal, lá pelas quatro da manhã, nasceu a Lia. Dos vinte e um mil seiscentos e vinte e dois dias em que habito neste planeta, aquele foi o mais feliz de todos.
Neste intervalo de tempo que separa o dia de hoje daquela data, também senti as mesmas emoções; mais diluídas do que as daquela noite, mas, com certeza, as mesmas emoções. Durante este período houve inúmeros momentos de alegria e alguns de tristezas também; além disto nasceram as suas duas irmãs e o filho dela – meu neto; houve muitas festas de aniversário, maravilhosos Natais, Páscoas memoráveis, quando cantava com a sua voz infantil desafinada, mal balbuciando as palavras, a cantiga do coelhinho. Enfim, se fosse escrever tudo o que recordo talvez jamais terminasse, menos por carência de espaço / tempo do que pelo meu baixo limiar de tolerância às emoções.
Infelizmente, quis o destino que a minha filha passasse por amargas experiências mal lhe chegou a puberdade. Evidentemente sofremos muito – ela muito mais do que eu, sem a menor dúvida. Tinha, portanto, tudo para ser uma pessoa fracassada. Minha filha sofreu violências físicas, emocionais e humilhações de todas as espécies. Deu à luz e educou seu filho, passou por privações materiais prementes e pelas piores de todas as privações: as do amor e as do carinho. Conheço a dramaturgia shakespeareana, todas os romances de Fedor Dostoiewski, boa parte da Comedie Humaine. De cada autor clássico da literatura universal conheço pelo menos um livro famoso. Mas nunca vi nada que se comparasse com o que sofreu a minha filha, guardadas as devidas proporções dos seus treze para catorze aninhos de vida e a sua condição de mulher. Apesar de tudo isso, nunca desistiu de lutar. Sozinha, distante dos pais, sem nenhuma motivação para ter ilusões, mas lutando sem parar. Concluiu, a duras penas o curso secundário e depois o superior.
Fez-se Mestra durante três duros anos e defendeu, ao final do curso a tese: "Sociopoetizando o Hospital Dia" - ato ao qual tive a felicidade de estar presente -, arrancando lágrimas e notas máximas de toda a banca examinadora. Mais tarde fez-se também Doutora. Desta vez com a tese "Do Corpo Sentido Aos Sentidos do Corpo", tendo obtido idêntico sucesso. Submeteu-se a Concurso Público para Professora Universitária numa rigorosíssima disputa onde existia apenas uma vaga e a maioria dos concorrentes já integrava o corpo docente da instituição estando ali, portanto, mais para homologar a sua situação perante a lei, do que propriamente para competir. Mesmo assim ficou na segunda colocação. Ontem, pouco mais de um ano depois, tendo surgido uma única vaga, foi nomeada Professora Doutora da Universidade Estadual do Ceará. E ainda há quem diga que a vida imita a arte.




Maria Petronilho
Enviado por Maria Petronilho em 22/12/2006
Alterado em 22/12/2006
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