Textos




Aos seis anos,  Bia já lia e escrevia sem erros.
Aprendera não se sabe como, ao mesmo tempo que aprendera a fazer laços com os atacadores dos sapatos, a abotoar os colchetes da saia, a fazer bonecas de trapos.
É muito fácil fazer bonecas.
Podem ter ou não ter esqueleto, depende do tamanho e este depende dos trapos que o acaso nos deixa à mão de semear.
Reúnem-se os trapos e escolhem-se os tecidos para o corpo e para o vestuário.
Para as bonecas pequenas, bastam fios, até linhas servem, se se enrolarem bastante.
Se a boneca for grande, tem de ter esqueleto, ou seja, uma armação, em cruz feita com dois pauzinhos.
Começa-se por uma bolinha: pode ser de pano, de pão, de algodão... se a gente tiver um berlinde (bola de gude) então... very, very good!
Ata-se bem apertado, em espiral, para fazer o pescoço.
Faz-se um rolinho de tecido e coloca-se na horizontal, ajeitando o tecido de modo a que fiquem a descoberto dois pedaços de cada lado.
Nas bonecas com esqueleto, envolvem-se os braços de pau em tiras de tecido e no fim dos braços cozem-se as pontas com pontinhos miúdos, a fazer de mãos.
Na vertical, isto é que requer alguma habilidade, colocam-se outros dois rolinhos: as pernas.
Se se tiver um trapo com que se faça um rolo fino e comprido o suficiente para se dobrar em ângulo... então é facílimo!
... Mas é preciso ter muita sorte... As mulheres aproveitam esses pedaços para fazer remendos.
Se a boneca tiver esqueleto tem de se ter muito cuidado, colocando um outro pauzinho do mesmo tamanho, de modo a que a boneca não pereça coxa.
Ata-se muito bem a cintura.
Depois é só fazer a roupa!
Cruza-se uma tira a fazer de blusa e coze-se dos lados.
E com um trapézio do mesmo ou de outro tecido, talha-se a saia.
Estão a ver como é fácil?!
O difícil foi descobrir como cozer bolsos na saia... levou tempo... um dia destes, explico!
Na cabeça, passam-se fios de lã e cortam-se conforme o penteado que se escolhe
É preciso ter uma agulha grossa, de cozer camisolas... Toda a gente sabe isso.
E depois basta pintar os olhos, o nariz e a boca.
Pode, antes de se cozer a blusa, colocar ou não maminhas por baixo, depende se se está a fazer uma boneca adulta ou uma boneca criança.
Aos homens e aos rapazes, é claro que se talham calças, com dois rectângulos.
Pois a Sara aprendeu tudo isto ao mesmo tempo que aprendeu a ler.
Tudo depende, afinal, de se observar as coisas, não é tão difícil quanto imaginam!
E a Bia lia.
Lia sobretudo livros de fadas, de princesas, de mouras encantadas, de dragões, de génios e gigantes.
Um dia descobriu que um dos dentes abanava. Abanava mais e mais dia após dia.
Andava ela a ler um conto onde uma pastorinha de patos tinha sonhado que se lhe caísse um dente e o colocasse durante essa mesma noite debaixo da almofada, esse dente passaria a ser o seu amuleto da sorte.
Deveria depois levá-lo consigo para todo o lado, de modo que visse tudo o que ela visse pois um dia encontraria um príncipe, e apaixonar-se-iam e ele levá-la-ia no seu cavalo branco para um lindo castelo, onde seriam felizes para sempre.
Nunca por nunca se perde o primeiro dente que nos cai!
Um belo dia, o dente de Bia, ao roer a linha com que cozia, caiu!
Não doeu nem um bocadinho, não deitou sangue, nada!
Bia verificou o buraco com a ponta da língua e sentiu a pontinha rija do dente novo que nascia por baixo.
Sorriu, guardou o dente solto e passou a levá-lo para todo o lado.
Ia brincar na praça, ia à mercearia...
Pelo Natal, os pais levaram-na ao circo, era uma benesse dos patrões, a oferta dos bilhetes.
Ela ficou radiante!
Preparou-se muito bem, penteou-se a preceito, ao espelho, e atou uma fitavermelha no alto da cabeça.
No meio do laço, com uma ponta de fora, a mãe viu uma coisinha branca... julgou ser sujeira e ia sacudi-la.
Bia deu um grande salto, afastando-se:
- Não, mãe! Não mexas, senão ele cai!
- Ele quem?!
- O dente, ora essa! Deu-me tanto trabalho a prender de maneira que ficasse com a cabeça de fora!
- O dente tem a cabeça de fora? – Admirou-se a mãe, apesar de habituada às invenções de sua filha.
- Mas claro que sim, mãe! O dente é meu companheiro, vou levá-lo ao circo, para se distrair connosco!

E assim foi!
... Visto ser oportunidade rara, não podia de ir deixar de acompanhá-la ao circo, para se distrair!
Maria Petronilho
Enviado por Maria Petronilho em 23/09/2008
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